Ajoelhou, nada de rezar...
Baseado em fatos reais...
4h11 da manhã, toca o telefone. Demorou para atender. Imaginou que seria trote ou notícia ruim. Acertou em cheio, mas o que chegou era inimaginável.
- Alô?
- Boa noite. Senhor João?
- Sim...
- Desculpe incomodá-lo a esta hora, mas o assunto é urgente. Meu nome é Marina, sou coordenadora do hospital municipal do Rio de Janeiro. Sua filha deu entrada há pouco, após sofrer um acidente de moto. Infelizmente, ela não resistiu.
Segundos de silêncio..
- Senhor?
- Sim, eu escutei. Vou tentar ir para aí o quanto antes.
- Ok, senhor, obrigada.
Levantou e mal conseguiu raciocinar. Ele, viúvo e a filha única, morta. Cansou de dizer a ela para não comprar moto, que era perigoso. Seu maior receio se confirmara.
Com a roupa do corpo e uma pequena mala, partiu para a rua com os R$ 17 que tinha no bolso. Foi até a rodoviária. A passagem custava R$ 67.
Não teve outra opção, a não ser contar com ajuda dos transeuntes. Em cada rosto, uma esperança de ajuda. Por ali, pouco conseguiu.
Resolveu entrar no metrô, ali o fluxo de pessoas era maior.
Na primeira viagem que fez, entrou no vagão e sem pensar, ajoelhou-se.
- Desculpe incomodá-los, senhores. Minha filha acaba de morrer em um acidente de moto, preciso ir ao RJ e não tenho dinheiro. Será que vocês podem ajudar um pobre viúvo, que acaba de perder a filha única?
Poucos olharam para ele, alguns ignoraram, outros começaram a mexer nos bolsos. Moedas, notas, tudo era bem-vindo. Não tinha familiares na cidade, as opções eram escassas. Senão, não estaria ali, de joelhos, pedindo esmola para desconhecidos, contando com bom coração de qualquer um.
Demorou quatro horas para conseguir os R$ 50. A ida estava garantida, a volta se arranjava por lá.
Chegando ao Rio, teve que pedir mais esmola para conseguir o dinheiro da passagem até o hospital. Chegando lá, confirmou a informação, ainda tinha esperanças de ter havido algum erro. Nada disso. Poderia começar a pensar na sua vida mais do que solitária, a partir de agora.
A 'tática' da esmola seria uma constante. A filha, que o ajudava constantemente, se fora, deixando pouco ou quase nada.
Ficar de joelhos dentro de vagões seria um trabalho diário a partir de então, que traria poucos resultados. Nada de agradecer, muito por lamentar.
Joga fora no lixo
Divorciado duas vezes, 66 anos, pai de um casal, aposentado. Há quatro anos se mudara para o interior, não dava mais conta de cidade grande. Barulho, gente mal educada e o trânsito. Ah, o trânsito. Só de lembrar que ficou livre de passar perto de shoppings em final de ano sentia um alívio único.
Ali, tinha tudo que queria. Paz, sossego, vida tranquila, cavalo e boi na rua, moço do leite, menino brincando, poucos vizinhos, todos se conhecem. Trabalhou a vida inteira para estar ali, sem luxo e conforto, mas sem faltar nada. Saúde de ferro, nem se lembrava da última vez que adoecera.
Os filhos estavam longes, as ex-mulheres ainda mais, graças a Deus. O que ele teve de tormento na vida por causa de mulher, não cabia no papel. Mas as velhas manias estavam ali, até hoje. As duas ex deviam abrir um sorriso só de pensar nas louquices que deixaram para aquele senhor careca, barrigudo, de óculos e com preocupações de menos.
Uma das poucas, mas que não o incomodava, era a organização. Tudo sempre estava no seu devido lugar, principalmente os papeis. Santos papéis. Santinhos, bilhetes de loteria, recado, cartas, avisos, lembretes, listas. Tinha de tudo.
Os papéis ficavam bem ao lado da agenda verde, que tinha seu lugar na mesa da sala, ao lado do telefone. um bloco de anotações e pequenas latas de refrigerantes, que foram aproveitadas para canetas, lápis maior, lápis menor. Se o lápis era menor que um mindinho, já era rebaixado. Coisa metódica.
Uma foto com os filhos decorava e refletia o jornal do dia, que no dia seguinte, não ia para o lixo. Não senhor.
A mesa do café da manhã era posta às 6h em ponto, todos os dias. Tinha dia que não achava a colher exclusiva de mexer o café e se desnorteava. Perguntava pra sua empregada e nada. Dias depois, achava a bendita no fundo da última gaveta, bem onde devia estar. Xingava alto.
Nenhum jornal era jogado fora. Um ato de três décadas que deu um baita trabalho na hora da mudança. E pra explicar pro moço do carreto o motivo de levar tanto jornal embora?
- É pra embalar vidro, é?
- Né não, vamos embora - respondeu sem dar chance de resposta.
Aquela compilação deixaria qualquer jornalista feliz. Afinal, notícias, mesmo do dia anterior, não foram
feitas para serem jogadas fora. Entrevistas, apurações e muito texto eram preservados.
Mas, o motivo era outro. Ele simplesmente não conseguia jogar fora. Reservou um dos quartos para os jornais velhos, não lidos, lidos, foleados e recentes.
O quarto era de uso exclusivo e ai de quem tentava entrar ali. Quando o perguntavam o que tinha ali, a resposta era rápida: 'umas coisas velhas', seguido de uma conversa qualquer para distrair.
Juntava todos da semana na velha mesa antes de passá-los ao quarto. Um em cima do outro, não podia sobrar espaço.
A cada entrada no quarto, se impressionava com o que tinha conseguido reunir. Era coisa pra pouca gente, isso é certo. Um feito histórico, vangloriava-se. Mas reconhecimento era algo que não queria. Era um prazer pessoal, intransferível.
Até hoje não sabia explicar o sentimento de todo aquele pertencimento. Confundia-se na dificuldade de jogar tudo aquilo fora.
Era meticuloso em excesso. No jeito de falar, sempre formal, mesmo no buteco da esquina. Gostava de política e futebol. Boa música, claro, principalmente no radinho de pilha, um companheiro de longa data. TV, só na hora do noticiário das 20h. Nada de filmes, no máximo um jogo de bola.
Não sabia nada de tecnologia, computadores, gostava mesmo era do contato físico, do cheiro do papel, dos traços escritos e rabiscados, na mensagem enviada e registrada de forma primitiva. Era um verdadeiro rei dos papéis.
Algumas vezes, entrava para reler alguma edição e percebia a preciosidade do que tinha guardado. Momentos históricos preservados, mesmo já amarelados, desgastados, mas úteis. Mais pro apreciação pessoal.
Mas seu feito merecia valor. Reuniu coragem e foi ao jornal da cidade. Não demoraram a fazer uma matéria, que logo ganhou distâncias.
A universidade estadual logo o ofereceu um bom dinheiro em troca de doação. O valor para os alunos seria inestimável em ter tudo aquilo à disposição. Com dor, levou o combinado. Quase chorou quando viu tudo aquilo sair. Virou as costas, não quis se despedir de tantas capas, contra-capas, artigos, matérias, palavras cruzadas e quadrinhos. Eram tantos nomes, tantos entrevistados, tanta coisa...
Sentia que fizera sua parte. Era hora daquilo servir para algo, ajudar os outros. Nunca tinha pensado que aquilo, um dia, teria utilidade.
Teve dificuldade para encontrar novas manias. A casa ficou vazia, algo faltava. Não queria mais saber de jornal guardado.
Lembrava e lamentava, depois sorria ao saber que sua figura dera nome à sala da faculdade, onde tudo era mantido, com muito mais cuidado.
Voltou ali por duas vezes, e só. Teve uma homenagem simples, como ele. Nada de dinheiro, nada de status.
Continuou comprando seu jornal diário. Mas, agora, o destino era a lata de lixo, sem sofrimento.
Repórter não pode fugir da luta!
Repórter precisa ter paciência, dedicação e um olho bom. Precisa estar atento a tudo e a todos. Qualquer movimento pode virar uma pauta, uma fala, uma citação. Precisa sentir o ambiente. Perceber um grupo que se reúne ou alguém que está sozinho, tudo isso pode render algo.
Não pode ter medo, vergonha ou receio de ir falar com quem quer que seja. Tem que tentar. O máximo que vai acontecer é um papo rápido, uma viagem nem tão perdida quanto possa parecer. Ao lado do fotógrafo, faz uma das duplas mais temidas e respeitadas do jornalismo. Uma sincronia boa pode fazer a diferença.
Repórter tem que meter a cara, perguntar por que, como, onde, quando, quem e muito mais que lhe passar pela cabeça. Precisa ter criatividade para elaborar uma boa pauta, fazer uma pergunta diferenciada, que muitos podem estar pensando, mas não tiveram a audácia de perguntar. Sem medo de ser feliz e de ser criticado, por assessoria, editor ou leitor.
No dia do repórter, minha admiração por vários destes profissionais, de jornal, TV, revista ou rádio. Cada um passa por dificuldades diferentes e ao mesmo tempo parecidas. Enquanto o perrengue de uns é ouvido, de outros é visto e de alguns outros é lido. Muitas vezes, tudo isso que acontece por detrás de uma matéria passa despercebido quando uma ela é publicada.
Com ou sem estrutura, a obrigação é a veiculação, com o máximo de qualidade e autenticidade possível. Depois disso, resta aguardar por um retorno, que muitas vezes nem acontece. O silêncio pode ser o melhor dos elogios.
Sigamos no caminho, perseverando, acreditando que cada fala ou linha pode ser lembrada e fazer a diferença, para o bem ou para o mal.
Não fujamos da luta. ...read more ⇒
Chuva deu toque especial à BH no final de semana
Um céu escuro não sobressaiu diante do inevitável arco-íris (crédito: Cacá Pádua)
Belo Horizonte sofre com as chuvas, mas há alguns dias as gotas que caíram sobre a capital mineira despertaram certa curiosidade e admiração.
Em poucos minutos, pôde-se ver uma área completamente nebulosa, com uma ligeira luz iluminando um pequeno espaço.
Ventos fizeram com que a água que caía fosse para diferentes lados, ao mesmo tempo. O efeito foi raro.
Enquanto de um lado chovia, do outro fazia sol, sem nem saber que alguns pingos logo chegariam por ali.
Um céu escuro encobriu os prédios da capital e o tom, aos poucos, foi mudando, até se perder de vez, dando lugar aos raios de sol e uma limpada boa no cenário da capital.
Para dar um colorido especial, nada mais justo do que um arco-íris. Coisa de cinema, BH.
O escuro do céu foi embora e deu lugar à chuva e neblina. Mas o arco-íris foi insistente. (crédito: Cacá Pádua)
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Ansioso cheio de prontidão
Ansioso e paranóico, mas tinha um coração daqueles. Se o pessoal que o conhecia somente pela 'pilha', ficasse sabendo do tamanho da bondade que tinha ali, trucava no ato.
Mas tinha hora pra tudo. Mais pra ficar puto com tanta falta de paciência que o consumia em quase todos os dias. Mas também tinha dia para relaxar e mostrar um outro lado.
A bondade, no entanto, não tinha hora pra aparecer. Em alguns momentos onde se jurava que o cara ia explodir, ele abria o coração e mostrava um lado ainda desconhecido por muitos.
Alguns o taxavam de louco. Mas, também, o que dizer do cara que comprava isqueiro só pra acender cigarro dos outros? Tinha sempre um de prontidão, assim como uma caneta.
Assim que via alguém com um cigarro na boca, já chegava quase assustando a figura, com a chama acesa. Não foram poucas as vezes em que o cigarro já estava aceso e a ansiedade aparecia como traidora, o fazendo sair de fininho, com um ou outro rindo pelas costas.
No chaveiro, um abridor de garrafa. Perdeu a conta de quantas já havia aberto para clientes e garçons ao lado. Aquilo ali já lhe rendera algumas amizades de boteco e poucas conquistas rápidas, regradas a algumas cervejas abertas exclusivamente pelo companheiro de bolso.
A fama de louco e bondoso sempre lhe rendeu boas lembranças por parte dos outros.
Quando morreu, não deu outra. Virou um anjo da guarda. Ainda sem paciência, mas cheio de prontidão.
Mudança repentina
Fiscal do aeroporto internacional, era daqueles linha dura, não deixava passar nada.
Só de bater o olho, já decidia se ia aliviar ou não, com poucas exceções. Moças bonitas, crianças, idosos e deficientes eram liberados.
Todo o resto sofria, ainda mais quando a aparência merecia desconfiança.
Em um de seus vários dias ruins, viu o loiro cabeludo de longe. Tatuado, jaqueta de couro, carregando um violão nas costas, tipão de cantor. Esse não escapava.
Quando chegou perto para mostrar o passaporte, a situação piorou, quando um tripo piercing na orelha chamou a atenção, além de mais dois no nariz.
- 'No way', se limitava a dizer o fiscal, para desespero do artista, que já estava em cima da hora.
Com duas horas e meia de atraso, ele pôde entrar no palco, tudo culpa do funcionário que insistiu em não autorizar sua entrada. Produtor, empresário e até gente do governo teve que intervir para conseguir a liberação do astro internacional, que mal era conhecido pelo carrancudo senhor, que ainda teria uma surpresa ao chegar em casa.
A mulher tinha dois ingressos para o show da noite, presente do chefe. Não tinha como não ir. Mal sabia o esforçado esposo que estava prestes a ver seu desafeto em breve. Não se interessava por música, sua vida se limitava ao trabalho e família.
Antes mesmo da metade do show, já estava impressionado pela presença de palco do jovem artista. Conseguiu, por poucos momentos,pensar em como ele deveria ter se sentido mais cedo, querendo apenas entrar no país para fazer seu trabalho. Foi barrado, sem motivo, por um cara qualquer, provavelmente, um mal amado doido para estragar o dia alheio.
Viu-se numa posição detestável. Dali em diante, pensou menos no seu instinto, que poucas vezes funcionava. As aparências perderam valor e passou a tratar o trabalho como merecia, sem inventar situações apenas para mostrar alguma autoridade.
Mas a maior vantagem veio pelo gosto da música, que começou a ganhar forçar desde então, sem distinção de estilos e aparências.
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